domingo, 11 de janeiro de 2015

Capacidade de sobreviver




"A felicidade consiste em dar passos na direcção de si próprio e ver o que se é. " José Saramago 

Não raras vezes, existem na nossa vida, acontecimentos que representam pontos de viragem no que somos. São, muitas vezes, momentos tão simples que correm o risco de se tornar imperceptível a sua importância no momento. Vivi um desses momentos recentemente. Numa formação, onde estavam pessoas conhecidas e outras que nem tanto, um dos intervenientes faz a questão " alguma vez tiveram numa situação entre o viver e morrer, literalmente, e tiveram de recorrer às ferramentas da mente para sobreviver a esse momento?" , ouvir aquilo, até porque nada o fazia prever, causou um tsunami dentro de mim. Uma onda baixa que destruiu tudo à sua passagem. Em dois segundos as lágrimas assumiram-me quatro a quatro, sem que as conseguisse controlar. Continuou a partilha. Minutos mais tarde e com as lágrimas entre portas, contei devagarinho, mas em poucas palavras e sem detalhes o momento. O momento que ainda à um ano atrás me fazia acordar tantas vezes de noite com o pânico de estar a deixar de respirar. Enquanto falava, ouvia-me e processava. Talvez tenha sido ali, quando lutava quieta para sobreviver, que me elevei a primeira vez, acedendo a um poder interior que desconhecia existir. Talvez nesse instante que durou uma eternidade e nos instantes seguintes em que sozinha tentei, em vão,  curar as mazelas daquela brutalidade, tenha acedido a um patamar de mim que ainda hoje me define. Capacidade de sobrevivência. Por norma, é hábito referir-me a esses dias como dias em que sofri violência doméstica. Hoje, ao ler um texto publicado pela Rita Ferro Rodrigues, na Maria Capaz, sorri. Na realidade aquilo que vivi naquela noite não foi violência doméstica,  catano, aquilo foi uma valente carga de porrada e afins que podiam ter determinado a linha que separa a vida da morte.