quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Estado Civil: CAPAZ







Não faz muito tempo, enquanto jantávamos, o A. perguntou-me o porquê de eu ter ficado tanto tempo no meu casamento. Já teríamos falado muitas e muitas vezes sobre o tema ao longo de todo este tempo, mas nunca me tinha colocado a questão assim, a tão curto modo. Era uma conversa de crescidos e sei que lhe queria ter respondido de uma forma assertiva, mas, a surpresa da questão e o momento não deixaram que o meu objectivo  fosse avante. Talvez isto, mas não só. Talvez eu nunca tivesse reflectido o suficiente sobre a questão por forma a formalizar uma resposta estruturada. Aquilo consumiu-me uma boa parte do sono que nessa noite por várias razões não chegou. O que sustentou anos de casamento em nome de um amor que entretanto se transformou em temor? O que me fez entregar a uma perfida rotina, ao desmantelamento emocional, a uma estupidez, a uma depreciação constante, a ofensas, a traições, a violência fisica? Como me deixei atafulhar em excesso de peso, problemas e doenças? Sete anos volvidos, gostava de ter uma resposta concreta para dar. Foi certamente em nome de um ideal construído pelos tempos, por não querer desistir do meu sonho de menina, pela humilhação de que seria alvo, pela vergonha, por orgulho, pela esperança de existir um dia e um dia em que tudo seria diferente, por olhar em redor e não encontrar apoio, porque habilmente conseguia esconder, por tanta coisa e por mais isto: o terror de não ser CAPAZ sozinha. Capaz de criar os meus filhos, de os educar, de os sustentar. Capaz de sobreviver aos milhares de ameaças feitas ao longo de anos. Capaz de voltar a levantar a cabeça e voltar a encarar o espelho. Capaz... Foi por tudo isto e mais uns pós. Nunca existirá essa resposta estruturada, assertiva, concreta. O que existiu foram dias, meses e anos nos quais fui sendo capaz, uns momentos mais capaz, outros, menos. O que existe é o agora, este agora no qual todos os dias tenho de ser um bocadinho e outro bocadinho e um bocadinho mais capaz. Um agora ávido de viver o que nunca foi vivido, a cada dia, todos os dias porque eu, também mereço. #ahoradeserfelizéagora